Após as apresentações da peça “A arte
de enterrar seus mortos”, que esteve em cartaz no Parque das Ruínas durante o
mês de dezembro de 2011, convocamos os presentes para um bate papo informal,
deixando-os à vontade para comentar, sugerir, reclamar ou calar e partir.
Algumas pessoas sentiram-se compelidas a comentar o que viram, outras
preferiram digerir o espetáculo para depois entrar em contato conosco e houve
também aqueles que se calaram. Entre as manifestações, muitas questões
interessantes foram abordadas; Algumas por pontos de vista que nos chamaram
bastante atenção pela capacidade da obra ir além do que queríamos passar
intencionalmente e outras por aterem-se a detalhes quase imperceptíveis, mas
que faziam parte da composição do espetáculo.
Nos debates foram ressaltados os
movimentos de contorção da atriz. Manifestou-se que, ao encenar a tragédia em
questão, esta atuação expressionista ia de encontro ao que estava sendo
narrado. Além disso, citou-se que a peça mostrava um corpo inteiro, com
expressão em cada membro, ao invés de apenas um rosto. Mãos, pernas, braços e
pé estavam contando uma história e não era necessário ver o rosto da atriz para
sentir e enxergar o que estava sendo narrado.
Em geral, o público achou
interessante a questão dinâmica de uma única pessoa interpretar todos os
personagens. Alguns elogiaram a atriz pela potência vocal e física necessária
para cumprir esta função. Outros indagaram sobre a concentração e a capacidade
de memorização. E, por fim, alguns revelaram que, ao fechar os olhos, era
possível visualizar todos os personagens em cena. Foi enfatizada também a
questão da energia da vibração da voz, que toca a plateia - elemento principal
da pesquisa que deu base para este espetáculo.
Em relação ao texto, muitos
enfatizaram algumas frases marcantes da narrativa. Outros apontaram que o
embate entre o direito divino e o direito estabelecido pelo Estado estava bem
representado. O ponto mais polêmico, que suscitou reclamações e defesas por
parte do público, foi o personagem Creonte, que no espetáculo aparece como um
vilão maniqueísta e alegórico; O personagem foi apontado como exagerado, mas
foi defendido por apresentar, de acordo com a tradição oral, a visão que o
narrador e que a própria Antígona têm dele.
Outro ponto bastante comentado foi o
figurino, apontado como bonito e funcional - devido à mobilidade proporcionada
pelas fendas nas pernas. Nas cordas entrelaçadas, representando os personagens
atados a seus destinos, notou-se, durante as movimentações da atriz, que ora o
figurino representava a nobreza de Creonte, ora expunha o flagelo dos outros
personagens.
O público também questionou sobre
influências de estéticas orientais, pela gestualidade da atriz; E os movimentos
foram comparados ao Kathakali indiano, pela forte presença de mãos e pés na
composição cênica. Esta estética está ligada à religião e ancestralidade, tema
presente no espetáculo.
Algumas pessoas sentiram falta de uma
maior interação da atriz com a plateia, de forma que pudesse se estabelecer um
jogo de olhar e maior emancipação da história.
Surgiram também curiosidades sobre o
processo de trabalho à distância, uma vez que o diretor do grupo, Ronaldo
Ventura, mora em São Bernardo do Campo e a atriz, Ana Cecilia Reis, mora no Rio
de Janeiro. Foi esclarecido que o Curupira é um grupo de treinamento do ator e
que, para se alcançar uma qualidade de desempenho, é necessária uma profunda
disciplina que parte do próprio ator, sendo responsabilidade do diretor dar o
auxílio necessário para o desenvolvimento do trabalho, direcionar e finalizar a
obra para ser apresentada.
No geral, podemos dizer que o
principal tema da pesquisa, o mosaico vocal, surtiu o efeito desejado, e também
que o Curupira apresentou um trabalho diferenciado e autoral, por partir de uma
pesquisa individual e única. Estamos felizes com o retorno do público, atentos
às observações e orgulhosos com o resultado!
Seguem algumas perguntas do último
dia:
Público:
Quanto tempo demorou o processo do espetáculo e quais foram as principais
referências para o treinamento?
Ana Cecília
Reis: Sozinha, eu fiquei treinando por mais de 3 meses, todos os dias,
exercícios de voz e movimento. Depois acho que o processo todo durou de 6 a 8
meses.
Ronaldo
Ventura: Na verdade, se pensarmos na formação dessa presença cênica, o trabalho
está sendo desenvolvido desde que nos conhecemos; Então, desde 2007.
A: Sim, porque tudo o que nós
exercitamos, todo tipo de treinamento, gera uma memória corporal. Então,
realmente, se pensarmos nesse sentido, o treinamento que gerou esse espetáculo
começou há 4 anos.
P: Sim, mas gostaria de saber
especificamente para esse trabalho.
A: Bom, a questão da pesquisa vocal foi
no tempo que eu falei mesmo, começamos a trabalhar e pesquisar voz e movimento
e ficamos nesse processo por volta de 6 meses.
R: Em relação aos processos de
treinamento, fizemos muita coisa, passando por diversos exercícios, desde
Meyerhold, passando por Decroux, Grotowski, Barba, Burnier...
A: Eu criei uma partitura vocal e, a
partir disso, decidi onde colocaria cada voz, gerando esse mosaico de vozes que
vocês viram...
P: É verdade que você ficou durante
meses “enchendo o saco” do seu marido e fazendo barulhos chatos pela casa, em
um exercício em que para todo gesto que você fizesse tinha que fazer também um
barulho?
A: (Risos)... É verdade! Não só do
meu marido, durante os ensaios os vizinhos devem achar que eu sou louca, que eu
sofria muito...
R: E que o marido batia nela... (Risos)
A: Esse exercício é um exercício muito chato,
mas eficiente. Todo movimento e gesto têm que ter um som diferente, é um
exercício bem livre e que parece legal, mas depois de um tempo ele torna-se
insuportável. O Ronaldo pediu para que eu fizesse todos os dias durante 30
minutos e eu fazia só 10 minutos por dia, porque chega uma hora em que você não
consegue mais fazer - é muito chato, enlouquecedor. Mas, em compensação, você
desenvolve uma organicidade de som e movimento impressionante. Por exemplo,
muitas vezes vemos atores que não conseguem falar e agir ao mesmo tempo, às
vezes movimentos bem simples, como falar levantando de uma cadeira; Muitas
vezes isso se torna uma dificuldade, parece que a ação está desconectada da
fala. Esse exercício é uma excelente maneira de treinar isso, é excelente pra
contadores de histórias, que querem ter um corpo mais vivo e orgânico em cena,
conectados à história narrada. Mas hoje em dia eu agradeço por já ter passado
dessa fase... (Risos)
P: E por que Antígona?
R: Quando eu vi a Ana improvisando
durante os exercícios, percebi que existia algo muito forte ali e muito
feminino, com uma tendência sempre a ir pro chão, uma coisa mais ligada à
terra. Então tentei recordar-me de mulheres que lutaram pelo que queriam e fracassaram
e lembrei-me da Antígona. Eu gosto muito de Antígona, pensei também em Joana D’arc,
mas aí estaríamos falando em outro contexto, em traição, por isso pensei na
heroína que insiste em um gesto que é maior do que ela, mesmo sabendo que vai
dar tudo errado.
A: E eu também queria falar sobre
morte. Então, as coisas foram se encaixando, o Ronaldo me apresentou a ideia e
eu aceitei.
P: Então você gostaria de passar algo
relacionado à futilidade das boas ações?
R: Não necessariamente, eu gostaria
de falar sobre uma força maior, que nos faz continuar a lutar mesmo que a gente
se dê mal, algo maior do que nós - como está escrito no programa: às vezes é
inútil, mas é necessário. Assim como fazer teatro, eu não consigo pensar em um
bom motivo para fazer teatro hoje em dia, a não ser pra mim. Eu faço teatro
porque eu preciso. E só. Todo mundo que quer fazer teatro hoje em dia se fode.
E nós fazemos. Porque é importante pra mim, é importante pra Ana.
A: E pra vocês, que vieram aqui nos
assistir.
R: Não sei se estou sendo muito
claro.
P: Eu concordo com você, hoje em dia
ser um artista é passar por cima de muitas coisas, é um ato de coragem.
A: Quando colocamos no programa a
visão da Antígona como indivíduo, estávamos cientes de que poderíamos receber
críticas sobre essa visão. Porque quando Sófocles escreveu Antígona, as
tragédias gregas eram bem claras de que a função de cada “personagem” era a de ser
uma voz representativa. A Antígona representa o sagrado, o religioso - a lei
dos deuses, enquanto o Creonte representa a razão e a lei dos homens. Nós
sabemos disso, mas por que temos vontade de remontar essa tragédia nos dias de
hoje? Porque essa questão ultrapassa as intenções do autor e do período, ela
diz muito pra nós, pra nossa sociedade. Nós nos identificamos com a Antígona,
buscamos Antígonas que possuam honra para fazer o que acreditam, mesmo que isso
seja muito difícil, muito ousado, muito raro.
P: Eu tenho uma dúvida, em primeiro
lugar, gostaria de parabeniza-la pela interpretação, e em segundo gostaria de
falar sobre o texto, que é uma adaptação sua. Em um determinado momento você
diz que “O destino é para os fracos”, mas a Antígona morre e cumpre exatamente
o seu destino. Essa situação é bem paradoxal, pois, no final, todos cumprem o
que foram destinados para cumprir.
R: Eu não sei o que o autor quis
dizer. Não sei se ela cumpre o seu destino, acho que ela passa por cima dele.
Eu gosto de paradoxos, eles geram atritos.
A: Quando fizemos a concepção do
figurino, eu e a Caju Bezerra, optamos pela corda por acreditar nisso,
acreditar que todos os personagens estavam presos aos seus destinos. O Ronaldo
discorda disso. O Ronaldo acredita que Antígona fez uma escolha, e então a
discussão foi por aí: a Antígona tinha uma escolha? Eu acho que não, mas se formos
pensar na Ismênia, que não entra nessa adaptação, podemos pensar que sim. Que
Antígona escolheu enterrar seu irmão e Ismênia escolheu não se meter, não se
opor ao poder. Mas se formos entrar na questão liberdade de escolha ou destino
entramos em uma questão sem fim, se nós mesmos estamos aqui e fazemos o que
fazemos por destino ou por escolha... Essa é uma questão difícil.
R: E impossível de ser respondida.
A: Alguém sabe a resposta? Se
souberem, falem agora... (Risos)
R: Obrigado pela presença de todos.
Boa noite!