sábado, 19 de maio de 2012

"A Arte de Enterrar seus Mortos" na XII Mostra Minimalista de Petrópolis


Foi um grande prazer participar da XII Mostra Minimalista de Petrópolis. O evento mais uma vez se mostrou importante para a cidade, buscando integrar prática e pensamento sobre o fazer teatral. Também tivemos a oportunidade de sermos jurados da XII Mostra 5 minutos em cena, o que colaborou para conhecermos melhor o teatro petropolitano. A apresentação no espaço do Covil Imaginário foi muito bacana, com um ambiente propício à encenação do espetáculo, e o debate permeou temas desde processos de trabalho do ator até dramaturgia e métodos criativos. 

 Agradecemos e parabenizamos a todos da equipe: Sidney Carneiro, Andrea Virgínia, Antígona Schiffler, Felipe Cardoso e Gustavo Lambert. 

 E agradecemos especialmente a colaboração dos companheiros da imprensa na divulgação do espetáculo: Catarina Maul, Lucianne Fortunatto e Márcio Salerno. 

 Aproveitamos para lembrar que faremos uma única apresentação do espetáculo na Sala Ester Leão na Unirio,gratuitamente, nessa terça-feira, dia 22, às 21 horas. A Unirio fica na Av. Pasteur, 436 - Urca Rio de Janeiro - RJ.

 Confiram as fotos de nossa estada em Petrópolis:

Participação no Programa Bem Cultural

Participação no Programa Bem Cultural

Em frente ao Covil Imaginário

Passagem de Luz

Apresentação do espetáculo no Covil Imaginário

Apresentação do espetáculo no Covil Imaginário

Apresentação do espetáculo no Covil Imaginário

Apresentação do espetáculo no Covil Imaginário

Apresentação do espetáculo no Covil Imaginário

Apresentação do espetáculo no Covil Imaginário

Apresentação do espetáculo no Covil Imaginário

Debate

Debate

sábado, 12 de maio de 2012

Novas datas de apresentação


O espetáculo "A Arte de Enterrar seus Mortos" foi convidado para integrar a programação da XII Mostra Minimalista de Petrópolis no dia 17 de maio (para conferir a programação completa da Mostra acesse: Programação Mostra Minimalista) e fará uma apresentação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) no dia 22 de maio.

Segue abaixo as informações:

Local: Espaço do Covil Imaginário 
Endereço: Rua Alberto Torres, 116 - Centro - Petrópolis-RJ
Data: 17 de maio, quinta-feira.
Horário: 20h
Valor: R$10,00 (inteira)

Local: Unirio (Sala Esther Leão)
Endereço:Av. Pasteur, 436 - Urca Rio de Janeiro - RJ
Data: 22 de maio, terça-feira
Horário: 21h
GRATUITO

Nos vemos lá! Até!

Resenha do espetáculo por Leonardo Munk



A arte de enterrar seus mortos por Leonardo Munk*

Esta nova produção do Curupira, grupo fundado há exatos dez anos na região do ABC Paulista por Ronaldo Ventura e que tem em Ana Cecília Reis e Caju Bezerra seu braço carioca, reconta a trágica história da mais desgraçada das filhas de Édipo. Neste A arte de enterrar seus mortos, no entanto, o infortúnio de Antígona alcança louvável amplitude graças ao feliz encontro entre o corajoso trabalho de sua intérprete e um texto de qualidade.

De autoria de Ventura, diretor e também iluminador do espetáculo, o texto de A arte de enterrar seus mortos suprime personagens e cenas, concentrando toda a ação da peça no gesto desafiador de Antígona e seu consequente aprisionamento por parte dos guardas de Creonte. Este, ao corporificar a inflexível rigidez da lei estatal, revela-se absolutamente insensível aos apelos fraternos, consolidando deste modo o perfil clássico da figura autoritária. 

Da arena onde se passa o embate os espectadores reconhecem os fantasmas de Antígona e Creonte, do guarda e do narrador (ou corifeu?). Sozinha em cena, mesclada ao solo sujo, Ana Cecília Reis cria vozes e perfis para cada um dos personagens. Trabalho de corpo e voz que se mostra gratificante, até mesmo nos breves momentos em que a distinção vocal das personagens se mostra mais tênue. Percebe-se nessa entrega o resultado de um sério trabalho colaborativo entre atriz e diretor, que, conduzido com paciência e minúcia, desvela detalhes e gestos que enriquecem e aumentam a percepção da tragédia de Antígona.   

A inexistência de um cenário específico, podendo se adequar sem prejuízo a uma grande variedade de espaços, e a proximidade dos espectadores da cena são elementos que contribuem para o efeito de intensificação do drama. Quanto ao figurino de Caju Bezerra, ele é funcional e bonito, enquanto que a luz de Ronaldo Ventura acentua adequadamente os gestos expressionistas da atriz, bem como as delimitações da claustrofóbica cena onde se atualizam os infortúnios da heroína trágica.

Ao reeditar a intrépida ação de Antígona e seu gesto inútil, o atual espetáculo do grupo Curupira reafirma a relevância e a força do mito, bem como sua premente e necessária busca de solidariedade, tolerância e igualdade.  


Professor Adjunto do Departamento de Teoria do Teatro e da Escola de Letras da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua nas áreas de Teoria do Teatro, Teoria Literária e Literatura de Língua Alemã. Dedica-se ao estudo dos seguintes temas: teatro alemão; expressionismo e modernismo; relações interdisciplinares entre literatura e outras mídias. É membro do grupo de pesquisa Formas e Efeitos, Fronteiras e Passagens na Linguagem Teatral.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Balanço de Temporada: Dezembro - Parque das Ruínas


 Após as apresentações da peça “A arte de enterrar seus mortos”, que esteve em cartaz no Parque das Ruínas durante o mês de dezembro de 2011, convocamos os presentes para um bate papo informal, deixando-os à vontade para comentar, sugerir, reclamar ou calar e partir. Algumas pessoas sentiram-se compelidas a comentar o que viram, outras preferiram digerir o espetáculo para depois entrar em contato conosco e houve também aqueles que se calaram. Entre as manifestações, muitas questões interessantes foram abordadas; Algumas por pontos de vista que nos chamaram bastante atenção pela capacidade da obra ir além do que queríamos passar intencionalmente e outras por aterem-se a detalhes quase imperceptíveis, mas que faziam parte da composição do espetáculo.

Nos debates foram ressaltados os movimentos de contorção da atriz. Manifestou-se que, ao encenar a tragédia em questão, esta atuação expressionista ia de encontro ao que estava sendo narrado. Além disso, citou-se que a peça mostrava um corpo inteiro, com expressão em cada membro, ao invés de apenas um rosto. Mãos, pernas, braços e pé estavam contando uma história e não era necessário ver o rosto da atriz para sentir e enxergar o que estava sendo narrado.

Em geral, o público achou interessante a questão dinâmica de uma única pessoa interpretar todos os personagens. Alguns elogiaram a atriz pela potência vocal e física necessária para cumprir esta função. Outros indagaram sobre a concentração e a capacidade de memorização. E, por fim, alguns revelaram que, ao fechar os olhos, era possível visualizar todos os personagens em cena. Foi enfatizada também a questão da energia da vibração da voz, que toca a plateia - elemento principal da pesquisa que deu base para este espetáculo.

Em relação ao texto, muitos enfatizaram algumas frases marcantes da narrativa. Outros apontaram que o embate entre o direito divino e o direito estabelecido pelo Estado estava bem representado. O ponto mais polêmico, que suscitou reclamações e defesas por parte do público, foi o personagem Creonte, que no espetáculo aparece como um vilão maniqueísta e alegórico; O personagem foi apontado como exagerado, mas foi defendido por apresentar, de acordo com a tradição oral, a visão que o narrador e que a própria Antígona têm dele.

Outro ponto bastante comentado foi o figurino, apontado como bonito e funcional - devido à mobilidade proporcionada pelas fendas nas pernas. Nas cordas entrelaçadas, representando os personagens atados a seus destinos, notou-se, durante as movimentações da atriz, que ora o figurino representava a nobreza de Creonte, ora expunha o flagelo dos outros personagens.

O público também questionou sobre influências de estéticas orientais, pela gestualidade da atriz; E os movimentos foram comparados ao Kathakali indiano, pela forte presença de mãos e pés na composição cênica. Esta estética está ligada à religião e ancestralidade, tema presente no espetáculo.

Algumas pessoas sentiram falta de uma maior interação da atriz com a plateia, de forma que pudesse se estabelecer um jogo de olhar e maior emancipação da história.

Surgiram também curiosidades sobre o processo de trabalho à distância, uma vez que o diretor do grupo, Ronaldo Ventura, mora em São Bernardo do Campo e a atriz, Ana Cecilia Reis, mora no Rio de Janeiro. Foi esclarecido que o Curupira é um grupo de treinamento do ator e que, para se alcançar uma qualidade de desempenho, é necessária uma profunda disciplina que parte do próprio ator, sendo responsabilidade do diretor dar o auxílio necessário para o desenvolvimento do trabalho, direcionar e finalizar a obra para ser apresentada.

No geral, podemos dizer que o principal tema da pesquisa, o mosaico vocal, surtiu o efeito desejado, e também que o Curupira apresentou um trabalho diferenciado e autoral, por partir de uma pesquisa individual e única. Estamos felizes com o retorno do público, atentos às observações e orgulhosos com o resultado!

Seguem algumas perguntas do último dia:

Público: Quanto tempo demorou o processo do espetáculo e quais foram as principais referências para o treinamento?
Ana Cecília Reis: Sozinha, eu fiquei treinando por mais de 3 meses, todos os dias, exercícios de voz e movimento. Depois acho que o processo todo durou de 6 a 8 meses.
Ronaldo Ventura: Na verdade, se pensarmos na formação dessa presença cênica, o trabalho está sendo desenvolvido desde que nos conhecemos; Então, desde 2007.
A: Sim, porque tudo o que nós exercitamos, todo tipo de treinamento, gera uma memória corporal. Então, realmente, se pensarmos nesse sentido, o treinamento que gerou esse espetáculo começou há 4 anos.

P: Sim, mas gostaria de saber especificamente para esse trabalho.
A: Bom, a questão da pesquisa vocal foi no tempo que eu falei mesmo, começamos a trabalhar e pesquisar voz e movimento e ficamos nesse processo por volta de 6 meses.
R: Em relação aos processos de treinamento, fizemos muita coisa, passando por diversos exercícios, desde Meyerhold, passando por Decroux, Grotowski, Barba, Burnier...
A: Eu criei uma partitura vocal e, a partir disso, decidi onde colocaria cada voz, gerando esse mosaico de vozes que vocês viram...

P: É verdade que você ficou durante meses “enchendo o saco” do seu marido e fazendo barulhos chatos pela casa, em um exercício em que para todo gesto que você fizesse tinha que fazer também um barulho?
A: (Risos)... É verdade! Não só do meu marido, durante os ensaios os vizinhos devem achar que eu sou louca, que eu sofria muito...
R: E que o marido batia nela... (Risos)
A: Esse exercício é um exercício muito chato, mas eficiente. Todo movimento e gesto têm que ter um som diferente, é um exercício bem livre e que parece legal, mas depois de um tempo ele torna-se insuportável. O Ronaldo pediu para que eu fizesse todos os dias durante 30 minutos e eu fazia só 10 minutos por dia, porque chega uma hora em que você não consegue mais fazer - é muito chato, enlouquecedor. Mas, em compensação, você desenvolve uma organicidade de som e movimento impressionante. Por exemplo, muitas vezes vemos atores que não conseguem falar e agir ao mesmo tempo, às vezes movimentos bem simples, como falar levantando de uma cadeira; Muitas vezes isso se torna uma dificuldade, parece que a ação está desconectada da fala. Esse exercício é uma excelente maneira de treinar isso, é excelente pra contadores de histórias, que querem ter um corpo mais vivo e orgânico em cena, conectados à história narrada. Mas hoje em dia eu agradeço por já ter passado dessa fase... (Risos)

P: E por que Antígona?
R: Quando eu vi a Ana improvisando durante os exercícios, percebi que existia algo muito forte ali e muito feminino, com uma tendência sempre a ir pro chão, uma coisa mais ligada à terra. Então tentei recordar-me de mulheres que lutaram pelo que queriam e fracassaram e lembrei-me da Antígona. Eu gosto muito de Antígona, pensei também em Joana D’arc, mas aí estaríamos falando em outro contexto, em traição, por isso pensei na heroína que insiste em um gesto que é maior do que ela, mesmo sabendo que vai dar tudo errado.
A: E eu também queria falar sobre morte. Então, as coisas foram se encaixando, o Ronaldo me apresentou a ideia e eu aceitei.

P: Então você gostaria de passar algo relacionado à futilidade das boas ações?
R: Não necessariamente, eu gostaria de falar sobre uma força maior, que nos faz continuar a lutar mesmo que a gente se dê mal, algo maior do que nós - como está escrito no programa: às vezes é inútil, mas é necessário. Assim como fazer teatro, eu não consigo pensar em um bom motivo para fazer teatro hoje em dia, a não ser pra mim. Eu faço teatro porque eu preciso. E só. Todo mundo que quer fazer teatro hoje em dia se fode. E nós fazemos. Porque é importante pra mim, é importante pra Ana.
A: E pra vocês, que vieram aqui nos assistir.
R: Não sei se estou sendo muito claro.

P: Eu concordo com você, hoje em dia ser um artista é passar por cima de muitas coisas, é um ato de coragem.
A: Quando colocamos no programa a visão da Antígona como indivíduo, estávamos cientes de que poderíamos receber críticas sobre essa visão. Porque quando Sófocles escreveu Antígona, as tragédias gregas eram bem claras de que a função de cada “personagem” era a de ser uma voz representativa. A Antígona representa o sagrado, o religioso - a lei dos deuses, enquanto o Creonte representa a razão e a lei dos homens. Nós sabemos disso, mas por que temos vontade de remontar essa tragédia nos dias de hoje? Porque essa questão ultrapassa as intenções do autor e do período, ela diz muito pra nós, pra nossa sociedade. Nós nos identificamos com a Antígona, buscamos Antígonas que possuam honra para fazer o que acreditam, mesmo que isso seja muito difícil, muito ousado, muito raro.

P: Eu tenho uma dúvida, em primeiro lugar, gostaria de parabeniza-la pela interpretação, e em segundo gostaria de falar sobre o texto, que é uma adaptação sua. Em um determinado momento você diz que “O destino é para os fracos”, mas a Antígona morre e cumpre exatamente o seu destino. Essa situação é bem paradoxal, pois, no final, todos cumprem o que foram destinados para cumprir.
R: Eu não sei o que o autor quis dizer. Não sei se ela cumpre o seu destino, acho que ela passa por cima dele. Eu gosto de paradoxos, eles geram atritos.
A: Quando fizemos a concepção do figurino, eu e a Caju Bezerra, optamos pela corda por acreditar nisso, acreditar que todos os personagens estavam presos aos seus destinos. O Ronaldo discorda disso. O Ronaldo acredita que Antígona fez uma escolha, e então a discussão foi por aí: a Antígona tinha uma escolha? Eu acho que não, mas se formos pensar na Ismênia, que não entra nessa adaptação, podemos pensar que sim. Que Antígona escolheu enterrar seu irmão e Ismênia escolheu não se meter, não se opor ao poder. Mas se formos entrar na questão liberdade de escolha ou destino entramos em uma questão sem fim, se nós mesmos estamos aqui e fazemos o que fazemos por destino ou por escolha... Essa é uma questão difícil.
R: E impossível de ser respondida.
A: Alguém sabe a resposta? Se souberem, falem agora... (Risos)
R: Obrigado pela presença de todos. Boa noite!














sábado, 10 de dezembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Temporada no Parque das Ruínas - RJ




A Arte de Enterrar seus Mortos 

O que nos faz contar a história de uma mulher e seu gesto inútil?

Quando Antígona desafia a lei apenas para jogar um punhado de terra sobre o cadáver de seu irmão, ela faz isso apenas para ficar em paz consigo mesma. É tal sua necessidade que arrisca a vida por essa ação; E morre por isso.

O que nos faz pesquisar, treinar, ensaiar, e apresentar nosso gesto inútil?

Quando desafiamos o bom senso, as razões que nos são apresentadas diariamente, as lógicas das capitais, a Copa do Mundo, para fazer teatro, estamos arriscando o quê? Nada menos do que o mesmo que Antígona. Sim, a necessidade é grande - maior do que nós. Nossas ações são maiores do que nós; E muitos de nós morreram por isso.

Descendemos de Antígona. E somos todos parentes. Em nossa árvore genealógica, talvez não caiba Édipo, mas em nossos galhos pendem os membros do Living Theatre, que devido aos seus gestos foram presos e expulsos do Brasil, pende Norma Bengell, espancada em São Paulo e abandonada no Rio de Janeiro pela Ditadura, pende todo o elenco de Roda Viva, todos os atores do Arena. Pende Meyerhold, fuzilado e banido ao esquecimento por Stalin. Somos todos semelhantes; Em nossa necessidade de insistir em repetir nossos gestos - por vezes, inúteis.

Ronaldo Ventura